Da fermentação natural dos pães às pizzas de longa maturação, casas da capital mostram que o consumidor brasiliense está cada vez mais interessado no que existe por trás da receita, e não apenas no que chega à mesa
Em Brasília, o artesanal deixou de ser apenas uma palavra bonita estampada no cardápio. Para uma parcela cada vez maior do público, saber como um pão foi fermentado, quais ingredientes entraram na massa, de onde vem determinado queijo ou quanto tempo uma pizza descansou antes de ir ao forno passou a fazer parte da própria experiência de comer.
É uma mudança de olhar. O consumidor não quer somente o produto pronto: quer entender o processo, reconhecer a técnica e perceber cuidado em cada etapa. Nas padarias e pizzarias, isso aparece especialmente no avanço de propostas que trabalham fermentação natural, longas maturações, produção em pequenos lotes, ingredientes selecionados e receitas autorais.
Duas casas da Asa Norte ajudam a traduzir esse movimento. Na 313 Norte, a Madame Brioche aposta na panificação artesanal e na confeitaria de inspiração francesa para acompanhar diferentes momentos do dia. No Setor de Rádio e TV Norte, a Los Santos Pizza e Pão aproxima a tradição italiana das técnicas de longa fermentação, combinando pizzas, pães, viennoiseries e doces em uma proposta que transforma a refeição em experiência.
Mais do que concorrentes em categorias diferentes, as duas casas revelam uma mesma tendência: em Brasília, o artesanal está deixando de ser nicho para ocupar espaço no cotidiano.
O pão como processo e não apenas como acompanhamento
Na panificação, talvez nenhuma palavra explique melhor essa transformação do que tempo. A fermentação natural exige planejamento, observação e conhecimento. A massa não pode ser apressada para atender a uma lógica industrial de produção em série. É preciso respeitar temperatura, hidratação, descanso e desenvolvimento da estrutura.
Na Madame Brioche, essa filosofia aparece em uma vitrine que combina técnica francesa e memória afetiva. A casa trabalha com produtos que podem ocupar diferentes momentos do dia , do café rápido ao brunch sem pressa, e transforma itens conhecidos da viennoiserie em protagonistas.
O cardápio atual reúne doces como Cinnamon Roll, feito com massa doce enrolada com canela e açúcar mascavo, além de Pain au Chocolat, recheado com barrinhas de chocolate meio amargo, e Croissant ou Pain au Chocolat de Amêndoas, preparados com creme de amêndoas. Também aparecem clássicos franceses como Choux à la Crème, Palmier, Macarons e o La Madame, cubinhos de massa folhada com açúcar, canela e doce de leite.
A experiência, porém, não se limita à vitrine de doces. O salgado também ganha espaço, com receitas que transformam o pão em refeição, como com o Croque-Monsieur (R$ 24,00): sanduíche clássico francês servido no brioche, com molho bechamel, presunto e queijo; Danish (R$ 14,50): massa folhada com recheio salgado, com sabores que variam conforme a produção do dia.; e o Pão de Queijo (R$ 7,00): clássico brasileiro que divide espaço com as receitas de inspiração francesa.
A lógica é justamente ampliar as possibilidades de consumo. O pão pode acompanhar o café da manhã, entrar em um brunch ou virar o centro de uma pausa no meio da tarde. “Quando a gente fala de artesanal, não está falando apenas de fazer algo manualmente. Existe uma preocupação com cada etapa, desde a massa até a forma como o produto chega ao cliente. Queremos que a pessoa perceba esse cuidado e entenda que existe um processo por trás de cada receita”, afirma Henrique Uchôa, à frente da Madame Brioche.
O cardápio também permite que o cliente personalize a experiência com acompanhamentos como manteiga, mel de abelha, geleia, muçarela e presunto.
Do café ao fim da tarde
Outro sinal de mudança está na maneira como a padaria deixou de ser necessariamente um lugar de passagem. O café pode ser o motivo da visita, e o pão, o acompanhamento de uma experiência mais demorada.
Na Madame Brioche, o cardápio de bebidas acompanha essa proposta. Entre as opções estão café coado, espresso, café com leite, capuccino e chocolate quente. Para quem prefere bebidas frias, há Latte Caramelo e Melcchiato, enquanto alternativas veganas estão disponíveis em algumas preparações.
O público pode provar Café Coado (R$ 7,00): café servido na versão coada, para acompanhar doces ou salgados da vitrine; Capuccino (R$ 11,00): café com chocolate, leite e canela, com opção de leite vegano; ou Chocolate Quente (R$ 12,00): combinação de chocolate meio amargo e cacau, sem açúcar e sem amido.
Há também o Latte Caramelo (R$ 13,00): café com leite gelado finalizado com caramelo salgado, também disponível com opção vegana; e o Melcchiato: (R$ 13): café com leite gelado infusionado com mel, com possibilidade de preparo com leite vegano.
A bebida, nesse cenário, deixa de ser apenas um complemento. Ela passa a fazer parte da composição da experiência: um café e um croissant podem significar um desjejum; um chocolate quente e uma fatia de bolo, uma pausa; um salgado acompanhado de café, um almoço mais leve.“Existe uma mudança interessante no comportamento do público. As pessoas estão mais dispostas a experimentar, perguntar sobre os produtos e escolher de acordo com o momento. O café da manhã, o brunch e o lanche da tarde ficaram mais flexíveis. O cliente monta a própria experiência”, observa Uchôa.
Quando a pizza também precisa de tempo
Se o pão artesanal ensina a esperar, a pizza de longa fermentação leva a mesma lógica para outro território. Na Los Santos Pizza e Pão, no SRTVN Edifício Rádio Center, a massa é um dos elementos centrais da proposta. A casa trabalha com pizzas de longa fermentação e maturação de 48 horas, além de uma linha de pães artesanais. O cardápio reúne quase 30 opções de pizzas entre sabores tradicionais, especiais e doces. É uma maneira de olhar para a pizza que vai além do recheio. Antes de chegar ao molho, ao queijo ou à cobertura, existe uma massa que precisa ser desenvolvida.
E isso muda a percepção do produto. A farinha, a hidratação, o tempo de descanso e a fermentação interferem diretamente em textura, aroma e sabor. O resultado é uma pizza que não depende exclusivamente de uma cobertura carregada para chamar atenção.
Entre as opções que representam essa proposta estão sabores clássicos e autorais estão a Margherita Especial (R$ 82,40): molho pelati, muçarela de búfala, tomate-cereja, manjericão e parmesão; a Lampadati (R$ 88,40): molho pelati, muçarela, presunto di Parma, tomate seco, rúcula e muçarela de búfala; e a Caprese: R$ 80,40: molho pelati, muçarela de búfala, tomate e pesto de azeitona.
Há também criações inusitadas, como Lombo Canadense com Abacaxi (R$ 80,40): massa de longa fermentação com molho pelati, muçarela, lombo canadense, geleia de pimenta agridoce e abacaxi. A lista ainda passa por sabores como Portuguesa, Vespucci, Del Perro, Quatro Queijos, Pancetta, Los Santos e Vice City. A casa também trabalha com pizzas doces, entre elas Banoffee, Romeu e Julieta, Banana com Mel e Laranja Bahia.
“A pizza artesanal começa muito antes da cobertura. É a massa que determina boa parte da experiência. Nosso trabalho é respeitar o tempo de fermentação, escolher bons ingredientes e criar combinações que tenham identidade. O objetivo é que o cliente perceba isso já na primeira mordida”, explica o chef Thiago Leopoldino.
O ingrediente deixou de ser coadjuvante
Essa valorização do processo caminha lado a lado com outra mudança: a origem e a qualidade dos ingredientes ganharam importância. Na Los Santos, produtos como presunto di Parma, muçarela de búfala, tomate seco, pesto e diferentes tipos de queijo aparecem em combinações que procuram equilibrar sabores e texturas. Na Madame Brioche, chocolate meio amargo, creme de amêndoas, mel, canela, doce de leite e ingredientes da confeitaria francesa cumprem papel semelhante. O que existe em comum é uma tentativa de fazer com que cada ingrediente tenha função na receita.
Na prática, o consumidor passa a perceber que trocar um queijo por outro, escolher determinada farinha ou mudar o tempo de fermentação não é apenas uma decisão técnica da cozinha. É uma escolha que chega ao prato. “Hoje o cliente pergunta mais. Quer saber qual é o chocolate, qual é o queijo, como aquela massa foi feita. Isso é muito positivo porque aproxima quem está consumindo de quem está produzindo. A comida fica mais transparente e a experiência também fica mais rica”, diz Leopoldino.
Pão artesanal também é memória
Na Los Santos, a panificação acompanha a pizza como uma segunda frente da casa. A seleção inclui sourdough, ciabatta, brioche francês, focaccia, babka, croissant e outras preparações de fermentação e confeitaria. Entre combinações criativas estão o Sourdough: produto de fermentação natural, com textura e sabor característicos do processo de longa fermentação; e Ciabatta: pão de inspiração italiana, de estrutura leve e textura característica.
A casa oferece também Brioche Francês: pão enriquecido de massa macia, utilizado também em diferentes preparações da casa; Babka: pão doce trançado, associado à tradição da panificação europeia; e Focaccia: pão de origem italiana, usado tanto como produto individual quanto como parte de combinações para compartilhar.
A casa também transforma a panificação em experiência de café da manhã e lanche, reunindo pães, viennoiseries e doces em combos. É nesse ponto que as duas casas se encontram novamente: o pão não é apenas um acompanhamento. Ele é produto, técnica e memória.
Uma cidade que aprendeu a esperar
Brasília sempre teve uma relação forte com restaurantes, cafés e padarias. O que muda agora é o grau de atenção dedicado ao que acontece antes de a comida chegar à mesa. A ascensão de produtos artesanais acompanha um consumidor mais interessado em experiências gastronômicas e menos preso à ideia de que conveniência significa necessariamente rapidez. Uma massa que descansou dois dias pode ser mais interessante justamente porque levou dois dias. Um croissant que exige técnica e precisão pode ser valorizado pela textura que chega à mesa. Um pão de fermentação natural pode ganhar importância porque o consumidor entende que existe uma história entre a farinha e a fatia.
A própria experiência de compra se transforma.
Na Madame Brioche, a pessoa pode chegar pela manhã e escolher um café com croissant, voltar para um brunch ou parar à tarde para um chocolate quente e um doce. Na Los Santos, a experiência pode começar com um pão no café, passar por um croissant ou sanduíche e terminar, horas depois, com uma pizza de longa fermentação.
São ocasiões diferentes, mas com a mesma lógica: o produto final importa, mas o caminho até ele também virou parte da experiência. “Eu acho que o artesanal ganhou força porque existe uma vontade de voltar a prestar atenção na comida. Não é apenas comer. É sentir a textura, reconhecer o sabor, descobrir um ingrediente, entender uma técnica. Quando isso acontece, o alimento deixa de ser simplesmente um produto e passa a contar uma história”, resume Henrique Uchôa.
Para Leopoldino, a pizza segue o mesmo caminho. “A gente quer que o cliente tenha uma experiência que comece antes da primeira mordida. Quando ele sabe que aquela massa passou por um processo longo, que os ingredientes foram escolhidos pensando em equilíbrio e que existe uma equipe cuidando de cada etapa, ele passa a olhar para a pizza de outra maneira’, explica.
No fim, talvez seja justamente essa a nova fome de Brasília. Não necessariamente uma fome por mais opções, mas por mais significado nas opções que já existem. A capital está descobrindo que um pão pode ser uma experiência, que uma pizza pode ser resultado de uma espera e que o café da manhã ou o jantar podem começar muito antes de o prato chegar à mesa. Brasília não está apenas com fome de pão ou pizza. Está com fome de artesanal.



